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quarta-feira, 25 de março de 2015

A lição das borboletas

A pequena Aninha era considerada por seus pais uma menina feliz. Ela, porém, nem sempre concordava com essa opinião. O pai e a mãe lhe queriam muito, mas... os dois trabalhavam, e ela praticamente só os via à noite. Na escola, as professoras eram muito exigentes. Seu irmão mais velho foi-lhe bom companheiro de jogos, mas depois de ficar mocinho, pouco se interessava por ela.
E por fim havia sua avó. Esta sim, dedicava-lhe muita atenção, era muito carinhosa, respondia com calma a todas as perguntas, sabia fazer doces e, melhor que tudo, contava histórias! Belas histórias de castelos fabulosos, princesas, santos e milagres. Mas ela morava longe, e só de tempos em tempos visitava a casa de Aninha.
A avó lhe falava também muito de Deus. Ela ensinou a inocente criança a rezar e lhe explicou muitas coisas interessantes da religião. Um ponto, porém, deixava Aninha meio perplexa: se Deus pode tudo e é tão bom, por que Ele não resolve os problemas de todo mundo?
Por exemplo — raciocinava ela — Ele bem poderia facilitar tudo na minha vida: bastaria fazer meus pais ficarem mais tempo em casa, diminuir as tarefas da escola, mandar meu irmão fazer-me companhia, trazer a vovó mais vezes à minha casa... Mas parece que Ele não quer fazer nada disso. Não entendo! Vou perguntar à vovó quando ela chegar.
* * *
Aninha pensava nessas coisas enquanto passeava sozinha pelo jardim da casa, onde havia muitas flores, alguns arbustos e árvores. Esse era o palco dos pensamentos solitários da menina, e também de suas pequenas descobertas. Lá descobriu com encanto um ninho de passarinhos, e tomou pela primeira vez uma picada de abelha. Ali seu irmão ensinou-lhe que as lagartas se transformam em borboletas. A princípio, ela não acreditou, mas ele pôs um desses rastejantes insetos dentro de um vidro com furos na tampa, e os dois puderam comprovar maravilhados esse pequeno milagre da natureza, no dia em que encontraram dentro do vidro uma bela borboleta de asas amarelas, ao lado da crisálida aberta e vazia.
A menina então adquiriu um especial gosto em observar as borboletas, fascinada pela misteriosa transformação das repugnantes lagartas em delicadas jóias voadoras. Vasculhava os arbustos até encontrar as crisálidas, e as visitava todos os dias, desejosa de assistir à “saída” de cada uma delas. Mas nunca conseguiu chegar na hora exata.
Um dia, teve a agradável surpresa de descobrir um casulo preso a um galhinho das flores da jardineira, logo abaixo da janela. “Que bom! Justo aqui! Essa eu vou poder acompanhar de perto todas as manhãs, sem sair do quarto!” Nessa expectativa, levantava-se todos os dias um pouco mais cedo, só para seguir o desenvolvimento da “sua” futura borboleta. E passado o tempo regular, numa ensolarada manhã de domingo, o pequenino inseto rompeu o casulo e começou a esforçar-se para sair da casca. Tudo isso sob o olhar atento de Aninha, a qual não perdia o mínimo detalhe do “grande acontecimento”.
— Finalmente, vou ver uma sair da casca!
O animalzinho, porém, esforçava-se, esforçava-se, e a custo ganhava poucos milímetros na dura faina de abandonar seu casulo. Em certos momentos parava, exausto, e depois retomava seu esforço. “Ela não consegue sair! O que está acontecendo?” — perguntava-se Aninha.
De repente, o inseto parou como que derrotado, e a aflita menina, julgando que ele ia morrer, decidiu por fim intervir. Pegou uma tesourinha e, com todo cuidado, cortou delicadamente a crisálida, e assim o inseto pôde, afinal, sair sem maiores problemas.
O sol ia lentamente subindo, e Aninha ansiosa esperava que as asas da borboleta, ainda dobradas e amarrotadas, fossem se desdobrando e estendendo. Mas isso não aconteceu. Após um tempo considerável, ela precisou descer correndo para o café da manhã. Depois de comer, voltou ligeira para o quarto e verificou decepcionada que “sua” borboleta só tinha andado de um galho para outro, e suas asas continuavam tristemente encolhidas...
Pouco depois, chegou o irmão e ela lhe contou o que acontecera.
— Ah! então você não sabe? Pois é justamente esse esforço feito pelo inseto para sair do casulo que impulsiona o sangue dele para as asas, forçando-as a se estenderem. No começo, as asas ainda estão molhadas e maleáveis, mas depois de secar tornam-se rígidas. Como a sua borboleta não fez esse esforço, as asas dela não cresceram, e agora que já secaram...
— Quer dizer que ela nunca vai voar? — interrompeu a menina, assustada.
— Não. Ela nunca vai voar.
Aninha irrompeu em prantos, e o irmão saiu do quarto, balançando a cabeça e resmungado: “Essas coisas de meninas!...” De fato, o pobre inseto perambulou alguns dias pela jardineira e depois desapareceu. Se caiu no jardim ou foi surpreendido por algum passarinho, ela nunca o soube.
* * *
Alguns dias depois, a avó veio visitá-los. Aninha contou-lhe a triste história da borboleta, bem como suas dúvidas a respeito da bondade de Deus que poderia facilmente resolver os problemas de todo mundo mas parece não querer fazer isso.
— Ora, minha filha — disse a boa senhora, abraçando-a —, veja como uma história explica a outra! Você pergunta o motivo pelo qual Deus às vezes parece não querer ajudar as pessoas... Ele faz assim a fim de permitir que elas sofram um pouco, se esforcem e rezem para, como acontece com as borboletas, obrigar suas “asas” a crescerem. Quem sempre foge dos sofrimentos e não se esforça por vencer as dificuldades, fica como borboleta sem asas, rastejando pelo resto da vida.
— Ah! Agora compreendo...
— E Deus, em sua sabedoria, permitiu que esse pobre bichinho ficasse sem voar, para dar uma grande lição a você, Aninha, a quem Ele ama mais do que todas as borboletas do mundo! Assim, quando você tiver dificuldades e sofrimentos, em casa ou no colégio, lembre-se da borboletinha: Deus quer que passemos por isso para podermos ter asas grandes e belas, com as quais possamos voar ao longo de nossas vidas.
— É isso mesmo! Deus sabe o que faz. Nunca mais vou reclamar da vida — concluiu a menina, mostrando ter entendido bem as sábias palavras da avó.
— E não chore mais pela sua borboleta. No Paraíso, Jesus tem outras bem mais bonitas para lhe mostrar. Quem sabe se lá, você a reencontrará?
E, já consolada de sua tristeza, Aninha olhou para o jardim e, em sua inocência, sussurrou: “Adeus borboletinha. Até o paraíso!”

Revista Arautos do Evangelho – Junho 2006 

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