segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

São Tomás de Aquino

A busca da verdade é tão antiga quanto o próprio homem, e não há um só entre os seres racionais que não deseje possuí-la. Por outro lado, a privação desse excelente bem acaba dando à coletividade humana uma face desfigurada, que se explica pela adesão a falsas doutrinas ou a meias verdades. Nossa sociedade ocidental é um exemplo dessa profunda carência que não encontra nos avanços da técnica nem na fugacidade dos vícios uma resposta satisfatória.
Um menino que buscava o Absoluto
Mas, afinal, o que é a verdade? Esta era uma das perguntas que o pequeno Tomás fazia em seus tenros cinco anos de idade. Segundo um costume da época, sua educação foi confiada aos beneditinos de Monte Cassino, onde ele passou a morar. Vendo um monge cruzar com gravidade e recolhimento os claustros e corredores, puxava sem hesitar a manga de seu hábito e lhe perguntava: "Quem é Deus?" Descontente com a resposta que, embora verdadeira, não satisfazia inteiramente seu desejo de saber, esperava passar outro filho de São Bento e indagava também a ele: "Irmão Mauro, pode me explicar quem é Deus?" Mas... que decepção! De ninguém conseguia a explicação desejada. Como as palavras dos monges eram inferiores à idéia de Deus que aquele menino trazia no fundo da alma!
Foi nesse ambiente de oração e serenidade que transcorreu feliz a infância de São Tomás de Aquino. Nascido por volta de 1225, era o filho caçula dos condes de Aquino, Landolfo e Teodora. Entrevendo para o pequeno um futuro brilhante, seus pais lhe proporcionaram uma robusta formação. Mal podiam imaginar que ele seria um dos maiores teólogos da Santa Igreja Católica e a rocha fundamental do edifício da filosofia cristã, o ponto de convergência no qual se reuniriam todos os tesouros da teologia até então acumulados e do qual partiriam as luzes para as futuras explicitações.
A vocação posta à prova
Muito jovem ainda, São Tomás partiu para Nápoles a fim de estudar gramática, dialética, retórica e filosofia. As matérias mais árduas, que custam até aos espíritos robustos, não passavam de um simples joguete para ele. Entretanto, nesse período de sua vida não avançou menos em santidade do que em ciência. Seu entretenimento era rezar nas diversas igrejas e fazer o bem aos pobres.
Ainda em Nápoles Deus lhe manifestou sua vocação. Seus pais desejavam vê-lo beneditino, abade em Monte Cassino ou Arcebispo de Nápoles, entretanto, o Senhor lhe traçara um caminho bem diverso. Era na Ordem dos Pregadores, recém fundada por São Domingos, que a graça haveria de tocar-lhe a alma. São Tomás descobriu nos dominicanos o carisma com o qual se identificou por completo. Após longas conversas com Frei João de São Julião, não duvidou em aderir à Ordem e fez-se dominicano aos catorze anos de idade.
Costuma a Providência Divina solidificar no cadinho do sofrimento as almas às quais confere um chamado excepcional, e São Tomás não escapou à regra. Quando sua mãe soube de seu ingresso nos dominicanos, tomou-se de fúria e quis tirá-lo à força. Fugindo para Paris, com o objetivo de escapar da tirania materna, o santo doutor foi dominado por seus irmãos que o buscavam com todo empenho. Após terem-no espancado brutalmente, procuraram despojá-lo de seu hábito religioso. "É uma coisa abominável - dirá depois São Tomás - querer repreender os Céus por um dom que de lá recebemos".
Assim capturado, levaram-no à mãe, a qual tentou fazê-lo abandonar seu propósito. Na incapacidade de convencê-lo, encarregou suas duas filhas de dissuadir a qualquer preço o irmão "rebelde". Com palavras sedutoras, elas lhe mostraram as mil vantagens que o mundo lhe oferecia, até mesmo a de uma promissora carreira eclesiástica, desde que renunciasse à Ordem Dominicana. O resultado desta entrevista é assombroso: uma delas decidiu fazer-se religiosa e partiu para o convento de Santa Maria de Cápua, onde viveu santamente e foi abadessa. Eis a força da convicção e o poder de persuasão deste homem de Deus!
Confronto decisivo
Farta de vãos esforços, a família tomou uma medida drástica: prendeu-o na torre do castelo de Roccasecca, com o intuito de mantê-lo encarcerado enquanto não desistisse de sua vocação. Em completa solidão, o santo passou ali quase dois anos, os quais foram aproveitados para um aprofundamento nas vias da contemplação e do estudo. Os frades dominicanos o acompanhavam espiritualmente através de orações e enviavam com sagacidade livros e novos hábitos que lhe chegavam às mãos por intermédio de suas irmãs.
Como passava o tempo sem o jovem detido esmorecer, seus irmãos - instigados por Satanás - montaram um plano execrável: enviaram à torre uma moça de maus costumes para fazê-lo cair em pecado. Contudo, São Tomás há muito se solidificara na prática de todas as virtudes, e não se deixaria arrastar. Vendo aquela perversa mulher aproximar-se, pegou na lareira um tição em chamas e com ele se defendeu da infame tentadora que fugiu apavorada para salvar a própria pele.
Insigne vitória contra o inimigo da salvação! Reconhecendo nesse episódio a intervenção divina, São Tomás traçou com o mesmo tição em brasa uma cruz na parede, ajoelhou-se e renovou sua promessa de castidade. Comprazidos por tal gesto de fidelidade, o Senhor e sua Mãe lhe mandaram um sono durante o qual dois anjos o cingiram com um cordão celestial, dizendo: "Viemos da parte de Deus conferir- te o dom da virgindade perpétua, que a partir de agora será irrevogável".
Nunca mais São Tomás sofreu qualquer tentação de concupiscência ou de orgulho. O título de Doutor Angélico não lhe foi dado apenas por ter transmitido a mais alta doutrina, mas também por ter em tudo se assemelhado aos espíritos puríssimos que contemplam a face de Deus.
O aluno supera o mestre
Agora com o assentimento dos seus, São Tomás partiu para consolidar sua formação intelectual em Paris e Colônia. Falava-se muito da pregação que fazia nesta última cidade o bispo Santo Alberto Magno, o mais conceituado mestre da Ordem dos Pregadores. São Tomás rezou, pedindo para conhecê-lo e receber dele as maravilhas da fé, e, para sua alegria, foi atendido. O que Santo Alberto não podia imaginar era que aquele frade despretensioso, de poucas palavras e presença discreta, tivesse tamanha envergadura espiritual.
Certo dia, caiu nas mãos do mestre um trecho escrito por seu aluno. Admirado pela profundidade do conteúdo, pediu a São Tomás para expor à toda a classe aquela temática. O resultado foi uma explanação em tudo surpreendente, na qual os demais alunos comprovaram quão temerário era o juízo pejorativo que faziam de seu companheiro: ele logrou explicitar com mais riqueza, expressividade e clareza que o próprio Santo Alberto.
Daí em diante, a vida do Doutor Angélico foi uma sequência de sublimes serviços prestados à sagrada teologia e à filosofia. Aos 22 anos de idade interpretou com genialidade a obra de Aristóteles; aos 25, juntamente com São Boaventura, obteve o doutorado na Universidade de Paris. Estes dois arquétipos doutrinários nutriam grande admiração recíproca, a ponto de disputarem afetuosamente, no dia de receberem o título máximo, quem seria nomeado primeiro, cada qual desejando ao outro a primazia.
Obra portentosa
Tão vasta é a obra tomista que a simples enumeração de seus escritos ocupa várias páginas. Formam um total de quase sessenta grandes obras - entre comentários, sumas, questões e opúsculos - das quais não está excluída nenhuma das principais preocupações do espírito humano.
Sua prodigiosa faculdade de memória lhe permitia reter todas as leituras que fizera, entre elas a Bíblia, as obras dos filósofos antigos e dos Padres da Igreja. Todas as oitenta mil citações contidas em seus escritos brotaram espontaneamente de sua capacidade retentora. Nunca precisou ler duas vezes o mesmo trecho. Ao lhe ser perguntado qual era o maior favor sobrenatural que recebera, depois da graça santificante, respondeu: "Creio que o de ter entendido tudo quanto li".
Em suas obras vemos uma incrível acuidade de espírito, um raro dom de formulação e uma superior capacidade de expressão. Costumava resolver quatro ou cinco problemas ao mesmo tempo, ditando para diversos escreventes respostas definitivas às questões mais obscuras. Não sucumbiu ao peso de seus conhecimentos, mas, pelo contrário, os harmonizou num conjunto incomparável que tem na Suma Teológica a mais brilhante manifestação.
Sabedoria e oração
Falar das qualidades naturais do Doutor Angélico sem considerar a supremacia da graça que resplandecia em sua alma seria uma deturpação. Frei Reginaldo, seu fiel secretário, disse tê-lo visto passar mais tempo aos pés do crucifixo do que em meio aos livros.
A fim de obter luzes para solucionar intrincados problemas, o santo doutor fazia frequentes jejuns e penitências, e não raras vezes o Senhor o atendeu com revelações celestiais. Em certa ocasião, enquanto rezava fervorosamente, pedindo luzes para explicar uma passagem de Isaías, apareceram-lhe São Pedro e São Paulo e esclareceram todas as dúvidas.
Recorria também a Jesus Sacramentado. Às vezes colocava a cabeça no sacrário e rezava longamente. Assegurou depois ter aprendido mais desta forma do que em todos os estudos que fizera. Por seu entranhado amor à Eucaristia, compôs o Pange Lingua e o Lauda Sion para a festa de Corpus Christi: obras-primas jamais superadas.
Um dia, estando imerso em adoração a Jesus Crucificado, o Senhor dirigiu- Se a ele com estas palavras:
- Escreveste bem sobre Mim, Tomás. Que recompensa queres?
Nada mais que a Vós, Senhor - respondeu ele.
A recompensa demasiadamente grande
Em 1274 São Tomás partiu para Lion a fim de participar do Concílio Ecumênico convocado pelo Papa Gregório X, mas no caminho adoeceu gravemente. Como não havia nenhuma casa dominicana próxima, foi levado para a abadia cisterciense de Fossanova, onde faleceu a 7 de março, antes de completar cinquenta anos de idade. Suas relíquias foram transportadas para Toulouse em 28 de janeiro de 1369, data em que a Igreja Universal celebra sua memória.
Ao receber por derradeira vez a Sagrada Eucaristia, disse ele:
"Eu Vos recebo, preço do resgate de minha alma e Viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, vigiei, trabalhei, preguei e ensinei. Tenho escrito tanto, e tão frequentemente tenho discutido sobre os mistérios da vossa Lei, ó meu Deus; sabeis que nada desejei ensinar que não tivesse aprendido de Vós. Se o que escrevi é verdade, aceitai-o como uma homenagem à vossa infinita majestade; se falso, perdoai a minha ignorância. Consagro tudo o que fiz e o submeto ao infalível julgamento da vossa Santa Igreja Romana, na obediência à qual estou prestes a partir desta vida."
Belo testamento de elevada santidade! A Igreja não tardou em glorificá- lo, elevando-o à honra dos altares em 1323. Na cerimônia de canonização, o Papa João XXII afirmou: "Tomás sozinho iluminou a Igreja mais do que todos os outros doutores. Tantos são os milagres que fez, quantas as questões que resolveu". No Concílio de Trento, as três obras de referência postas sobre a mesa da assembléia foram: a Bíblia, os Atos Pontificais e a Suma Teológica. É difícil exprimir o que a Igreja deve a este seu filho ímpar.
Da fé extraordinariamente vigorosa do Doutor Angélico brotava a convicção profunda de que a Verdade em essência não é senão o próprio Deus, e a partir do momento em que ela fosse proclamada em sua integridade, seria irrecusável e triunfante.  Eis o grande mérito de sua doutrina imortal: ela continua ecoando ao longo dos séculos, pois nada pode abalar a supremacia de Cristo.
Em São Tomás a Igreja contempla a realização plena da oração feita pelo Divino Mestre nos derradeiros momentos que passou nesta terra: "Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade" (Jo 17, 17-19).
(Revista Arautos do Evangelho, Janeiro/2008, n. 73, p. 32 à 35)



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Férias nos Arautos

No mês de dezembro, as participantes do Projeto Futuro e Vida passaram uns dias marcantes na residência dos Arautos do Evangelho.
No primeiro dia, fizeram um passeio por Campo Largo- PR, onde visitaram... a piscina com vários pulos, brincadeiras e mergulhos, o almoço foi no próprio local. No dia seguinte, começaram a preparar três encenações teatrais natalinas, com as histórias da Menina do Tambor, O pão do Toni (história do Panetone) e o melhor presente de Natal.


No último dia, as atrizes apresentaram os seus teatros, mas estas não sabiam a surpresa que viria, no refeitório havia um lanche natalino com todas as delícias do Natal.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ceia de Natal

Cada festa do calendário litúrgico traz consigo uma efusão de graças peculiares. O Natal é uma data muito especial quando todos encontram um pouco da verdadeira alegria: nasceu o Menino Deus.  

Os Arautos do Evangelho também sentiram essa alegria e quiseram transmiti-la de uma maneira mais especial àqueles que, durante todo o ano, nos ajudaram tanto. Por isso fizeram uma Ceia de Natal em sua casa, seguida de uma Cantata de Natal e um pequeno presente em agradecimento por tudo.  


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um Pinheiro de Natal?

O caro internauta ao ver a foto poderia se perguntar: O que é isso? Um Pinheiro de Natal? Ou uma sobremesa original? 
Poderíamos responder que se trata dos dois.
Nos últimos dias de aulas na Escola Arautos do Evangelho, a Professora Heloísa, com as demais professoras se reuniram com cada sala de aula para fazerem um doce natalino, como já vem sendo tradição na Escola. Desta vez, optaram por fazer uma árvore de Natal. Uma receita fácil, mas que encantou o paladar das alunas. Os ingredientes: casquinha, chocolate derretido, bolo de chocolate, brigadeiro, bolacha e decorações variadas.



Uma dúvida ficou para as alunas: se foi melhor a elaboração ou a degustação.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Encerramento das Missões


No dia 23 de dezembro, teve lugar o encerramento das Missões coincidindo com o aniversário de Ordenação Sacerdotal do pároco Pe Claudio Ambrozio. Em sua homilia o, sacerdote comentou que as Arautos dos Evangelho, durante a missão do Menino Jesus, fizeram o papel de anjos, anunciando o verdadeiro sentido do Natal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O Menino Jesus nas ruas de Curitiba

A época do Natal é uma das que mais encanta os Arautos do evangelho, e como tal desejam manifestar a todos as alegrias do nascimento do Menino Jesus. O setor feminino dos Arautos em Curitiba iniciou uma Missão pelas ruas do Bairro de Santa Felicidade onde residem. A Santa Missa marcou a abertura dessa missão, tendo lugar na Igreja Matriz de São José e presidida pelo Pároco, Padre Cláudio, que anunciou a todos os paroquianos que nos dias subsequentes os Arautos do Evangelho passariam pelas casas e comércios cantando músicas de Natal e levando o Menino Jesus, relembrando, assim, o verdadeiro espírito de Natal.

Nos dias seguintes, todas saíram animadas pelas ruas entoando o “Noite Feliz”, “Imensa Alegria”, “Vamos todos à porfia”... Entrando em restaurantes, bancos, cabeleireiros, sapatarias, farmácias, escolas... e sempre deixando uma mensagem de natal e rezando com os presentes. Na parte noturna, visitavam os lares onde as famílias se reuniam para um momento de oração e manifestavam as suas emoções por receber tão grande graça: a visita do Menino Jesus.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Festa de Natal


Após várias preparações, chegou a almejada festa de Natal realizada na casa do Arautos do Evangelho. Iniciou-se com a entrada solene da Sagrada Família, seguida da Santa Missa celebrada pelo Revmo. Pe. Ryan Murphy.
Em seguida, todos tiveram a oportunidade de assistir a um vídeo com as atividades realizadas durante o ano de 2014.
A encenação teatral foi baseada na lenda do quarto Rei Mago representado pela Rainha Esther. Assim como os outros três reis Magos – Melchior, Baltasar e Baltazar – também queria adorar ao Menino Deus, mas ao contrário dos outros reis, foi sozinha já que ninguém de sua comitiva quis acompanhá-la. Ela levava para o Deus Menino três pedras preciosas: um rubi, uma safira e uma pérola. Quando chegou ao local marcado, os reis já haviam partido pois ela tinha se atrasado salvando uma jovem que estava sendo assaltada. Depois disso, a rainha atravessou o Egito à procura do Menino Jesus, e não conseguiu alcançá-Lo lá. Ele já havia partido. Após várias aventuras e caminhar por 33 anos, percebeu que não restara uma pedra para Lhe oferecer. Por fim, contaram-lhe que Nosso Senhor Jesus Cristo havia sido morto. Ao chegar ao túmulo fez uma última suplica dizendo que não sabia mais viver sem procurá-Lo e, portanto, desejava se encontrar com Ele na eternidade. Nesse momento, Jesus ressuscita e diz-lhe que recebeu todos os seus presentes em cada ato que realizou, e que agora ela seria uma rainha no Reino d´Ele.

Depois, como já é tradição, as participantes da Projeto Futuro e Vida e as alunas da Escola Arautos apresentaram várias músicas natalinas, de várias nações. E no final, como não podia deixar de faltar: São Nicolau! Que trouxe para as crianças doces e para os adultos o calendário de 2015.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Santo Estêvão Protomártir: O menino para quem Jesus olhou...

Por duas vezes, Nosso Senhor tomou um menino como exemplo para os discípulos, enaltecendo o valor da inocência. Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, teve o incomensurável privilégio de ser um deles.
Ao lermos as palpitantes páginas dos Evangelhos, sentimo-nos convidados a sair do corriqueiro da vida cotidiana para sermos transportados a páramos mais elevados de onde parece emergir, suave e majestosamente, a figura de Jesus.

Podemos então imaginar aquela sagrada silhueta iluminada pelos últimos raios de um sol poente, andando pelas poeirentas estradas da Galiléia ou acariciando com sua sombra benfazeja as frescas margens do lago de Tiberíades.

Em todas as suas atitudes, em seus nobres gestos e em suas palavras repassadas de seriedade, o Divino Mestre deixava transparecer aquele insuperável amor pelas criaturas. Seu olhar doce e atraente procurava com divino afã almas dóceis a seus conselhos, que quisessem sujeitar-se ao suave domínio de seu jugo. Que alegria experimentava aquele Coração amoroso ao encontrar, em meio às ruidosas multidões que O seguiam, algum coração puro e inocente, inteiramente aberto e consoante com o seu! "Tomando um menino, colocou-o no meio deles; abraçou-o e disse-lhes: ‘Quem recebe um destes meninos em meu nome, a Mim é que recebe; e quem recebe a Mim, não Me recebe, mas Aquele que Me enviou'" (Mc 9, 36-37).

Cena admirável: a Inocência incriada inclinasse com agrado sobre a inocência criada! Oh feliz criança cuja candura atraiu os olhares do Salvador!

Quem era aquele menino? Conhece- se ao menos seu nome? Sabe-se qual foi seu destino?
"Homem cheio de fé e do Espírito Santo"
Uma piedosa tradição multissecular conta-nos que se tratava de Estêvão. Desde cedo recebera esmerada educação na escola de Gamaliel, famoso doutor da lei. Em pouco tempo, graças à sua inteligência e aplicação, Estêvão tornou-se um entendido nas Sagradas Escrituras. Segundo Santo Agostinho, quando ouviu a pregação de Pedro um raio da graça penetrou seu coração e o jovem decidiu abraçar a fé cristã com grande entusiasmo. Logo de início, destacou-se por seu zelo e virtude de tal modo que nos Atos dos Apóstolos Lucas no-lo descreve como "homem cheio de fé e do Espírito Santo" (At 6, 5).

A pregação incessante dos Apóstolos, após Pentecostes, fazia aumentar a cada dia a multidão dos fiéis que acreditavam no Senhor. Surgiu, porém, nesses dias um problema: os cristãos gregos queixavam-se de que suas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de auxílio. Necessitando dedicar-se exclusivamente à oração e ao ministério da palavra, decidiram os Doze encarregar desse ofício "sete homens de boa reputação" (At 6, 3), e Estêvão foi um dos escolhidos. Imediatamente entregou-se ele ao serviço dos irmãos.
Rosto semelhante ao de um anjo
Tudo parecia pouco para o ardoroso ímpeto daquele jovem que "cheio de graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo" (At 6, 8). Em meio aos árduos trabalhos, encontrava alento na rememoração daquele olhar meigo e sereno de Jesus que anos atrás havia acariciado seus cabelos de menino. E no mais profundo de seu ser acalentava o sonho de um dia poder misturar o seu próprio sangue ao Preciosíssimo Sangue derramado até a última gota no alto do Gólgota.

Os inimigos de Cristo não podiam suportar por muito tempo a presença do intrépido jovem que lhes lembrava pública e continuamente a imagem do Crucificado. Desejosos de reduzir ao silêncio pregador tão importuno, "levantaram- se para disputar com ele, mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito que o inspirava" (At 6, 9-10). Enfurecidos ao verem-se impotentes,"agarraram-no e o levaram ao Grande Conselho" (At 6, 12). Mas ele não se acovardou: calmo e sereno, enfrentou o populacho amotinado e as falsas acusações de testemunhas subornadas que lhe imputavam o crime de ter blasfemado contra Moisés e contra Deus. A alegria de poder oferecer sua vida pelo Senhor pervadia-lhe a alma e refletia-se exteriormente, de modo que "todos os membros do Grande Conselho viram o seu rosto semelhante ao de um anjo" (At 6, 15).

"Esbravejavam de raiva e rangiam os dentes contra ele"
Interrogado pelo Sumo Sacerdote, Estêvão com longo e abrasado discurso, no qual manifestou filial respeito e veneração pelos antigos patriarcas, louvou a piedade de Abraão, a paciência de José e os grandiosos feitos de Moisés; e mostrou quão injustas e infundadas eram as acusações contra ele proferidas. Depois, inflamado de santa ousadia, exclamou: "Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo! Como procederam vossos pais, assim procedeis vós também! A qual dos profetas não perseguiram os vossos pais? Mataram os que prediziam a vinda do Justo, do qual vós agora tendes sido traidores e homicidas. Vós que recebestes a lei pelo ministério dos anjos e não a guardastes..." (At 7, 51-53).

O corajoso diácono não pôde terminar seu inspirado testemunho. Aquelas palavras eram por demais verdadeiras para serem suportadas pelos inimigos da fé, os quais "esbravejavam de raiva e rangiam os dentes contra ele" (At 7, 54). Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, permanecia de pé, no meio daquela hostil assembleia. Os insultos para ele nada representavam. Pelo contrário, eram um estímulo para crer nos coros de anjos que, além das muralhas das aparentes realidades desta vida, o aguardavam com uma palma e uma coroa. Levantando os olhos para o céu, viu aparecer-lhe o próprio Jesus, refulgente de glória, sustentando-o com seu divino olhar naquele supremo instante. E exclamou cheio de gozo: "Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus" (At 7, 56).

Ouvindo isso, os membros do Grande Conselho rasgaram as vestes e taparam os ouvidos enquanto, com grandes gritos, clamavam pela morte do "blasfemador". Estêvão viu-se rodeado por uma multidão ululante e sedenta de vingança que o empurrava violentamente para fora da cidade. Lá chegando, começaram a apedrejá-lo. Em meio a horríveis sofrimentos, o atleta de Cristo orava: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (At 7, 59). Nem mesmo uma tão sublime cena conseguiu comover algum desses corações endurecidos; cegos de ódio, continuavam a lançar enormes pedras sobre a inocente vítima.

Posto de joelhos, Estêvão percorreu uma última vez com os olhos a horda criminosa dos perseguidores. Suas vistas, já turvadas pela iminência da morte, detiveram-se, por alguns momentos, sobre um jovem de Tarso que guardava os mantos dos apedrejadores. Saulo, o fanático adepto dos fariseus, o adversário irreconciliável de Jesus Cristo, sentiu-se perturbado ante a insistência daquele olhar que o fixava com expressão severa e compassiva. E o angelical diácono exclamou em alta voz: "Senhor, não lhes leves em conta este pecado... E a estas palavras expirou" (At 7, 60).
Na aparente derrota, a vitória suprema
Tudo estava consumado. O primeiro mártir acabava de regar com o seu próprio sangue aquela semente de santidade que, numa quente tarde de verão, o Homem-Deus havia lançado em seu infantil coração. O grão de trigo estava morto, jazendo por terra, caído sob os golpes de um ódio bestial e injusto. Os lábios do jovem pregador não mais se abririam para invectivar com palavras de fogo; as dedicadas mãos do diácono não mais se moveriam para batizar ou servir; sua nobre presença, insuportável para os maus e doce para os bons, não mais se faria sentir; tudo isso estava agora reduzido a um pobre corpo ensanguentado, sem vida.

Entretanto, os inimigos não festejaram com manifestações de alegria sua vitória homicida. Ao contrário, diante da demonstração de fé e de nobreza que acabava de presenciar, a assistência retirou-se pesarosa e frustrada, procurando fugir daquele trágico espetáculo que lhe incomodava a consciência.

Estêvão, o derrotado, havia vencido! Seu testemunho de fé seria alento para os cristãos até o fim dos tempos. E seu generoso holocausto não tardaria em frutificar na alma daquele infame jovem que aprovara a sua morte: de Saulo surgiria Paulo, o incansável Apóstolo dos gentios, graças ao sacrifício e às orações do primeiro mártir a quem outrora Jesus havia olhado! 
 Ir. Clara María Morazzani - 2009/08/24 - Revista Arautos do Evangelho, Dez/2005, n. 48, p. 19 à 21)